Eu sabia que ia ser difícil, mas há dias que penso que podia ser mais fácil se cada um fizesse o seu papel.
No início do ano letivo pedi à professora do Gonçalo (eu e pelo menos outras 2 mães) que mandasse para casa os manuais à sexta-feira, já que todos os manuais e cadernos ficam na escola e só vão para casa se houver tpc's.
Eu, até combinei com a professora, que faria com ele o que ele tivesse em atraso.
Posso dizer-vos que se a professora mandou os livros 2 vezes, foi muito.
Por sorte, às sextas sou eu que vou buscá-lo à escola e, caso ele não traga os livros, mando-o logo ir pedir à professora.
Nas semanas que não há aulas à sexta, como nos dias de greve, ele nunca traz e como não sou eu a ir buscá-lo, passa esses dias sem manuais, o que faz com que eu esteja duas semanas sem saber muito bem o que anda a fazer nas aulas.
O objetivo de trazer os livros, é que eu possa acompanhar o que tem feito na escola e perceber em que ponto está a matéria. Além de ir também transmitindo à terapeuta.
Acho que é benéfico para todos os alunos, mas tendo em conta o caso do Gonçalo, acho mesmo essencial.
Nesta última sexta, a rotina foi a mesma, o Gonçalo não trazia os livros e eu disse-lhe para ir pedir à professora, já que os manuais estão arrumados num armário a que só a professora tem acesso.
Aproveitei para ir à sala, e a professora estava meio que a resmungar com ele: "não tenho aqui o livro de português, onde é que puzeste? Deve de estar na tua caixa..."
Ao chegar à porta disse boa tarde e a professora diz-me: "não mandei os livros porque ele não pediu..."
Sou eu que estou a ser picuinhas? Estou a ser dramática? Digam-me... é que para mim a conversa "peço-lhe que à sexta mande os livros pelo Gonçalo para eu estar a par da matéria e para trabalhar com ele o que não fez..." não está implicito que é sempre, independentemente de ele pedir ou não?
Chegados a casa fui verificar os manuais, e vi que nas últimas duas semanas pouco fez. Não sei se a turma utilizou pouco, não sei se ele esteve a pastelar e não trabalhou, não sei se a turma usou mas ele estava na educação especial e por isso não fez... Não sei nada!
Depois fui ver o caderno que usa nas aulas de educação especial, que não vinha para casa também há muito tempo, e vi que tinha um exercício de leitura a dizer que não conseguiu ler (o que me preocupou) e, entre outros exercícios, tinha um com as sílabas do "m".
Em 3 semanas aprederam 3 consoantes, o "p", "t" e "d". Nas últimas três semanas não aprenderam nenhuma nova, pelo que ele me dizia. Como não vinha nada para casa, eu confiava, apesar de achar estranho.
Perguntei à professora e disse-me que já tinham aprendido na semana passada e rematou com: "tente o ajudar Helena ".
Respirei fundo (nesse dia o meu horóscopo até dizia para me controlar e não explodir) e respondi "Ok, obrigada", mas a minha vontade era perguntar se não lhe tinha ocorrido enviar uma fichinha que fosse para ele trabalhar em casa, nem que fosse no fim-de-semana, ou no dia da greve...? E também fiquei a pensar se já aprenderam na semana passada, porque é que ele tem só um exercício no caderno? Fez alguma ficha? Fez no caderno de atividades? Porque no manual não tem nem sequer um exercício começado...
Bem, mas respirei fuuundo e fui preparar as coisas para trabalharmos em casa.
Enviei também mensagem à terapeuta a pedir para anteciparmos a sessão, porque estou a precisar de algum apoio e ela é quem me consegue dar.
Em casa temos trabalhado a leitura de sílabas e a velocidade leitora. Temos várias folhas com as sílabas e ditongos que o Gonçalo já aprendeu e todos os dias ele lê e eu calculo a velocidade a que lê. Para terem uma ideia, começou há quase 3 semanas com as sílabas do "p" no primeiro dia demorou 2 minutos e pouco e agora lê em 15 segundos. Isto na primeira folha. Entretanto fomos acrescentando mais e vamos complicando e misturando. Mas nota-se de dia para dia as melhorias. O objetivo é ele olhar e ler logo, não precisar de estar a juntar um p e um a, pa, e por aí. São coisas que levam o seu tempo e que são muito importantes.
Estes exercícios ele faz sempre comigo e o meu marido não tinha bem consciência do nível do Gonçalo. Há pouco esteve a assistir e ficou muito surpreendido, porque além de ler mais de 100 sílabas e ditongos sem se enganar, ainda leu algumas palavras pela primeira vez neste sistema, sem precisar estar a juntar as letras.
Há cada vez mais crianças a terminarem o 1°ciclo sem saberem ler corretamente, por isso é muito importante o trabalho em casa. E isso nós fazemos.
Mas, há sempre um mas, também é importante haver troca de informação. É importante os professores irem dizendo como estão as coisas e o que podemos fazer em casa para melhorar.
Eu compreendo que nem todos os pais estão disponíveis para isso, pelas mais variadas razões, mas num caso em que há essa disponibilidade, diz-se que há essa disponibilidade, e da parte da escola não há essa transmissão de informação, parece-me mal. Muito mal.
Portanto, um pouco no calor no momento, agarrei na caderneta de aluno e escrevi um recado para as 2 professoras a pedir que me enviem por escrito as dificuldades do Gonçalo para poder trabalhar com ele nas férias de Natal, e na psicomotricidade, e para que no 2°período continuem a fazê-lo semanalmente.
Depois lembrei-me que poderia ocorrer a professora de ed.especial não ver a caderneta e a professora não transmitir o meu recado (coisa muito possível) agarrei também no caderno e escrevi novamente o recado. Assim não há desculpa e todas têm acesso à informação.
E fica escrito, não há espaço para "diz que disse".
Agora vamos ver como isto corre, porque só irão ler terça ou depois, já que segunda têm uma visita de estudo. Mas já vi que não posso confiar, nem descansar. Tenho de andar sempre em cima, a perguntar tudo, a insistir, caso contrário quando sei das coisas, já o problema vai avaçado.
Tenho receio que a professora, ou as professoras, estejam a pensar que não precisam de exigir muito do Gonçalo porque ele não vai conseguir.
Tem que haver um meio termo, ele pode demorar mais, ou perder o foco com muita facilidade, mas há formas de melhorar isso. E no nosso caso temos quem nos ajude, a nossa terapeuta é super disponível, todas as dúvidas que tenho ela esclarece dando várias dicas, tem formação para trabalhar com crianças com PHDA, PEA, entre outros, está disponível para ajudar também a professora com as dificuldades que vão surgindo.
Temos um grupo no whatsapp, as 3, por sugestão da terapeuta, para que sempre que exista alguma dúvida se coloque no grupo. Houve uma dúvida colocada por mim, e houve uma questão da terapeuta à professora, que respondeu na diagonal e mesmo depois da terapeuta ter sugerido umas alterações, a professora não disse mais nada.
Para a consulta de neurodesenvolvimento andei cerca de um mês a pedir à professora uma pequena exposição sobre as dificuldades e caraterísticas do Gonçalo, para a neuropediatra ter mais informação. Reforcei várias vezes a importância de levarmos muita informação. Sabem o que levei? Nada!
Tive de lhe pedir numa mensagem escrita, para falar com a professora de ed.especial e dizerem-me por alto o que achavam importante.
Portanto a informação que levei foi mais ou menos isto: demora muito tempo a fazer as coisas e distrai-se com facilidade.
Na Pré, sempre que pedia a alguma das educadoras, levava 3 folhas, super detalhadas que a juntar ao relatório da terapeuta, a médica tirava logo uma série de conclusões.
Quando não se percebe a importância disto, torna-se difícil.
O ideal seria o trabalho em equipa: escola, casa, médicos e terapeutas, mas infelizmente não é isso que vejo.
Confesso que tenho receio de estar a exagerar, de estar a ver este panorama muito com o coração e pouco com a cabeça, mas é isto que sinto, e a intuição duma mãe, raramente está errada... portanto...