Não têm sido dias fáceis...
O nosso gato, Alf, tinha 14 anos e 4 meses. Estava connosco desde os 2 meses, portanto devem de imaginar o que foi perdê-lo.
Foi de repente e vou tentar resumir. Na segunda ao final do dia reparei que ele não tinha comido nem bebido água e que ia muitas vezes à caixa da areia, mas não fazias as necessidades.
Mudei a água, a comida, a areia, e continuou na mesma. Peguei-o ao colo e percebi que estava muito mais leve... como é que perdeu tanto peso em tão pouco tempo?
A veterinária não nos iludiu, foi bastante clara e tínhamos duas hipóteses, fazer exames para vermos se ainda havia tempo de ser operado, ou acabar com o seu sofrimento.
O Alf sempre foi um gato de poucos amigos. Aqueles gatos fofinhos que gostam de toda a gente são o oposto dele. Foi sempre meiguinho e amoroso só com os donos.
Quando engravidei ele tinha 6 anos, quando o Gonçalo nasceu já tinha os 7. Na altura havia quem achasse que nós devíamos de dar o gato, porque ele não se iria adaptar ao bebé.
Foi precisamente o contrário, ele só não se deitava com o Gonçalo porque não deixávamos. Super protetor, quando o bebé chorava ele era o primeiro a chegar perto dele.
Isto para dizer que levá-lo ao veterinário era uma tortura. Ele stressava imenso, assanhava-se, rosnava para os outros animais, para as pessoas, até que a veterinária começou a ter medo dele. Pior ainda, sentia o medo dela só se assanhava! Então eu arranjei uma veterinária que vinha a casa quando era necessário. Ele não gostava dela, mas ela gostava dele e não tinha medo, portanto corria bem.
Felizmente ele foi sempre saudável, nunca tivemos problemas de maior, portanto há muitos anos que ele não ía a uma clínica!
A nossa decisão, por muito dolorosa que tenha sido, foi rápida.
Não queríamos expô-lo ao stress de ir doente e fraco para uma clínica, com pessoas que não conhecia, com o cheiro de outros animais, fazer exames, sabendo de antemão que a probabilidade de correr tudo bem era bastante reduzida.
Como disse, a veterinária foi bastante sincera, e nós conhecemos várias pessoas que tiveram gatos com este tipo de problemas (rins e fígado) e nenhum, nem um, teve um bom desfecho.
Para mim, e o meu marido era da mesma opinião, íamos estar a adiar o inadiável, a sofrer e a provocar ainda mais sofrimento ao gatinho.
Eu só de pensar em tirá-lo de casa estava a custar-me imenso, porque sabia que era stressante para ele.
Decidimos acabar com o seu sofrimento...
A "nossa" veterinária não aplica eutanásia, portanto tivemos de levá-lo a outro veterinário, o que me custou horrores por ter de tirá-lo de casa. A situação já era difícil e ainda tinha de tirá-lo do seu espaço...
Foram 2 dias muito, muito, muito difíceis! Só de pensar que ia levar o meu gato para ser abatido, foi horrível.
Mas também era horrível pensar em prolongar o sofrimento, mesmo que fosse com a intenção de tratá-lo. Ao mesmo tempo sabia que não era possível tratar, era uma ilusão, estava tudo muito avançado, ele tinha 14 anos, iamos tratar o quê? Nada...
Nestes dois dias tentei ao máximo dar-lhe conforto, amor, carinho...
Eu estava com o coração na boca, só me apetecia chorar, sempre que me aproximava dele tinha de engolir o choro. Eles sentem a nossa tristeza, mas fiz o possível para não chorar ao pé dele.
Coloquei-lhe mantinhas lavadas perto da caixa da areia, para não ter de andar muito, continuei a mudar a água e a comida mesmo vendo que ele nem se importava com isso. Ofereci-lhe os seus petiscos favoritos (fiambre, atum e bolo caseiro) ele recusou sempre...
Não aspirei a casa, não liguei o liquidificador nem a varinha mágica porque eram barulhos que o assustavam, e o que ele menos precisava era de se assustar.
Dei-lhe muitos mimos, muitos beijinhos, peguei-o ao colo, disse que o amava e que ele era o meu gatinho lindo, que era a minha lengalenga habitual. Escovei-o, porque ele adorava ser escovado... varri 500 vezes as pedrinhas que iam agarradas nas patas sempre que tentou fazer as necessidades sem sucesso... mantive o seu espaço sempre limpinho, quando ele se levantava eu sacudia as mantinhas e ajeitava-as.
Pedi a Deus, aos anjos, ao universo, que acabassem com o seu sofrimento, mas não acabaram e eu tive de o tirar de casa para isso.
O Gonçalo foi para a escola de manhã, como sempre, e eu já lhe tinha explicado o que estava a acontecer e o que ía acontecer nesse dia.
Antes de sairmos de casa disse-lhe para se despedir do Alf e ele apenas disse, "tchau Alf" como era habitual. E eu disse-lhe para se despedir mesmo porque o Alf não ía estar em casa quando ele voltasse e nunca mais o veríamos. Imaginem o esforço que fiz ao dizer isto... neste momento custa-me escrever isto, imaginem o que foi aquele dia...
O Gonçalo aproximou-se do Alf, fez-lhe várias festinhas na cabeça e por fim disse: tchau Alf, tu és um animal muito fofinho!
Eu e o meu marido almoçámos em casa, como é habitual, e depois de almoçarmos eu ía com os meus sogros ao veterinário, numa localidade perto de Palmela, e o meu marido tinha de ir trabalhar.
Quando o meu marido se despediu do Alf foi muito difícil! Agarrou-o na posição que era habitual ele gostar de estar no colo do seu dono (sempre achámos que o Alf gostava de todos nós, mas o favorito era o meu marido) e falou com ele como sempre o fazia. E nesse momento desfez-se em lágrimas, coisa que ainda não tinha acontecido! Acabámos por chorar os dois abraçados ao Alf e fizemos a nossa despedida!
Eu preparei uma manta limpinha e um lenço meu, que tinha o meu cheiro, para o levar embrulhadinho. Levei-o ao colo, e apesar de se ter mexido e olhado espantado para tudo quando saímos de casa, estava tão fraquinho, que não foi nada comparado com o comportamento normal dele.
Fiz a viagem com ele sempre ao meu colo, e de início ele ia deitado, mas depois colocou-se apoiado no meu peito e ia a olhar para a janela.
No veterinário não se assanhou, o veterinário agarrou-o e ele nem se manifestou, tal não era a fraquesa. Primeiro foi administrada anestesia geral, para ele ficar a dormir e só depois a eutanásia.
Estive sempre com ele, continuou na sua mantinha e no meu lenço, abracei-o dei-lhe beijinhos e fiz a minha última despedida.
Saí de lá com uma sensação de alívio, por muito estranho que pareça. Mas foi mesmo o que senti "pronto, acabou-se o sofrimento".
Se não tivéssemos optado por isto, ele acabaria por morrer, mas seria um sofrimento muito maior...
Cheguei a casa e o impacto de entrar e não vir ninguém receber-me, de ver as suas caminhas e mantinhas vazias, de perceber que tinha ficado sem o meu Alf para sempre, fez-me chorar muito. Chorei como ainda não tinha chorado, desabafei...
Joguei fora todas as mantinhas, as toalhas dos banhos, as camas... Lavei o caixote da areia, a pá, o tapete de borracha, a escova e guardei, pois são recentes e estão em bom estado. Levei a comida e os sacos de areia para o gato da minha irmã, pois não queria manter nada à vista!
À noite sentia a presença dele na cozinha enquanto estava a fazer o jantar. E aí comecei a perceber que há mais de 14 anos que eu não estava sozinha em casa.
Tínhamos muitos hábitos, de manhã quando saía do meu quarto, ele já estava à minha espera. Eu ía tomar banho e ele sentava-se na sanita. Só saía da casa-de-banho quando eu agarrava no secador, por ter medo do barulho. Na segunda de manhã ainda me fez companhia.
Depois de almoço, e depois de eu arrumar a cozinha, deitavamo-nos sempre os dois no sofá. O meu marido não gostava, porque o sofá ficava com muitos pelos, mas eu ignorava (e limpava o sofá). Sempre gostei desse bocadinho e ainda bem que o mantive. Na segunda-feira ele já não foi para o sofá comigo, eu reparei mas não estranhei, pois ele estava a dormir e pensei que não lhe apetecesse.
Nos dias em que eu não ía para o sofá depois de arrumar a cozinha, o Alf andava atrás de mim a miar e a morder-me nos calcanhares.. como se dissesse: "então, hoje não vamos para o sofá?".
Se eu e o meu marido nos chateássemos e falássemos mais alto, ele vinha morder-me, porque o dono era o favorito!
Se nos abraçassemos, ele vinha deitar-se coladinho aos nossos pés para lhe fazermos festas.
De manhã, antes de o meu marido se levantar ele ía espera-lo ao lado da cama.
Às refeições sentava-se ao meu lado a pedir comida. Colocava a patinha no meu braço, como se dissesse "a próxima garfada é para mim".
Dormia a grande parte da noite no quarto do Gonçalo, às vezes na cama com ele.
De manhã, se eu voltasse para a cama depois do meu marido sair, ele ia sempre deitar-se aos meus pés.
Acordava-me muitas vezes durante a noite, eu levantava-me e ele saía do quarto em passo apressado e dirigia-se ao quarto do Gonçalo. Se por acaso eu não fosse atrás, ele vinha a miar ter comigo. Chegou a acontecer o Gonçalo estar quase a cair da cama, estar destapado e com frio, e eu só perceber porque o Alf insistiu que lá fosse.
Depois do quarto do Gonçalo ía a casa-de-banho, e depois levava-me à sua comida. Às vezes não tinha comida e eu dava-lhe, mas na maioria das vezes tinha tudo, só queria que eu o visse a comer.
E pensando nisto agora, há algumas noites que isto não acontecia...
Tivemos uma bela vida juntos. Ele consolou-me em muitos momentos de angústia, como quando tive o aborto, por exemplo. Demos muitos mimos um ao outro...
O Alf foi um gato muito amado, era dono de uma grande personalidade e vai deixar muitas saudades.
Um dia teremos outro gatinho, mas não para já. Não me sinto minimamente preparada para isso neste momento e sinto mesmo que tenho de fazer o luto do Alf.